A sociedade Cabo-verdiana
presencia, diariamente, situações tristes capazes de tirar as lágrimas dos
olhos dos mais sensíveis. São vários pontos da capital onde o clima e a
circulação massiva oferecem um ganha-pão para aqueles que aparentam ser
incapazes de se auto-sustentarem. Entre olhares tristes, semblantes descaídos e
pés descalços, há sempre um ser inocente de aspecto inofensivo a tentar cativar
o coração de quem quer de, alguma forma, alterar a rotina dessas pobres
criaturas. As roupas rasgadas e maltratadas pelo tempo descartam hipóteses de
perceber a verdadeira cor do sofrido vestuário. Trocam lares pela porta dos
bares em busca de trocados para finalizar o dia com sorrisos
molhados.
Quando a casa já não pode erguer a panela ao
fogão, são os menores que arriscam as pena mergulhando na aventura das esquinas
a erguer um silencioso clamor pelas veredas da capital. De mão em mão, ruas e
becos, portas e lojas, o discurso não muda: “Dê-me 10 escudos”. Este é o pedido
inicial. A expetativa é conseguir mais do que isso. São crianças que fazem da
rua as suas casas e vivem em situação de riscos e sem proteção. Seres
inocentes que possuem laços familiares, apesar de apresentarem uma aparência de
abandono.
Usam o espaço da rua
apenas para como lugar de lazer e trabalho, visando obter sustento e auxilio
para os familiares e retornam diariamente para a casa. E assim se repete o
triste cenário das crianças na rua em vários pontos da capital. Tivemos uma
entrevista com quatro crianças e adolescentes entre os nove aos 17 anos do sexo
masculino que exemplifica essa realidade. Todos foram entrevistados durante o
período de trabalho, na zona de Palmarejo, onde procuravam clientes para obter
o dinheiro do dia. Walter, rapaz de 12 anos de idade, prefere reduzir as despesas
da casa ao mergulhar-se nas aventuras das esquinas. " lá em casa é muito
difícil tenho nove irmãos aiNda tem minha mãe e minha avo... a comida não chega
para toda gente , mas aqui na rua posso comer e brincar... Costumo faturar de
20 à 1000 mil escudos por dia tenho alguns amigos aqui, pessoas conhecidas que
costumam me trazer comida e algumas comprinhas", diz o rapaz. A
socialização dessas crianças ocorrem pela dinâmica da rua, viver ali representa
seu desenvolvimento. Para os miúdos, estar longe da casa muitas vezes não é
resposta da vontade própria mas sim obrigação de quem detêm a guarda dos pobres
inocentes. Há casos em que os meninos são explorados e privados de fazer o que
mais gostam. Falo do rapaz de 11 anos que decidimos chamar-lhe de “Carlitos”.
Ao perguntar-lhe se gostaria de estar neste lugar, o menino responde:
"minha família é muito pobre mas eu não gostaria de estar aqui prefiro
estar na escola... Mas meu irmão me obriga a trabalhar para levar o dinheiro
para casa".
Cabo Verde é um País onde o ensino tornou-se
num pilar fundamental para o futuro dos mais pequenos pelo fato de não houver
alternativas a não ser os estudos. Nesta perspectiva, o Sociólogo remata que a
redução das crianças nas escolas passa a ser uma das graves consequências deste
fenómeno. Jairson Gomes acrescenta ainda que ficam sem nenhum plano ou projeto
digno e não têm futuro. O abandono escolar é uma realidade que passou a fazer
parte da vida de David. O rapaz deixou os estudos aos 10 anos: "Eu
estudava quarta classe mas parei não tenho condições, muitas vezes ia para
escola com fome, não tinha materiais escolares não tinha sapatos por isso deixei
de estudar" lamenta a criança. A ausência dos miúdos do seio familiar e
escolar permite que estes passem maior parte do seu tempo nas ruas. Ali estão
expostos à situação de riscos eminentes. Para o sociólogo, as crianças estão
sujeitas a vários riscos, tais como: prostituição, tráfico e consumo de drogas,
trafico de pessoas e rapto, um caso que, aqui em Cabo Verde é muito frequente.
Pelo facto de serem menores, inocentes e inofensivos, as crianças tornam-se
rapidamente numa presa fácil nas mãos do predador. Esta é uma dura realidade
vivia por Jailson, rapaz de 13 anos. O menino conta que: "Eu estudo de manhã, saio da escola
venho para cá trabalhar, aqui comecei com 9 anos com o dinheiro que ganho ajudo também em
casa. se eu ficar em casa não tem o que comer à noite. Depois umas sete horas eu vou para casa. Na
rua já passaram muitas dificuldades como discriminação, assaltos, etc…”.
Esta questão político-social precisa ser
analisada com uma atenção especial. “Existe o ICCA que combate e muito bem este
flagelo” realça o Sociólogo. Há uma lei que diz que uma criança não deve
trabalhar. Tem direito ao ensino primário e secundário. Também existem as
convenções Internacionais.
O fenómeno “Crianças na rua” é um fator
extremamente preocupante. Há todo um esforço que se deve fazer para garantir a
segurança, a felicidade e o bem-estar dos pequeninos. No entanto, as ONGs, o
Governo, a Sociedade junto com a estrutura familiar devem unir no combate ao
flagelo. A família, em primeiro lugar, deve estar sempre junto das crianças
porque a educação provém primeiro do lar. A escola como sendo um lugar de
convivência tem uma quota-parte. É onde os miúdos devem sentir o prazer, o
gosto de lá estarem. Por último, os educadores e encarregados de educação têm
que “controlar” as crianças.
De facto, a rua não é um local para as
crianças aprenderem a ter um bom conhecimento da ética e moral para um bom
convívio. Se os Pais não tiverem tempo para educar os miúdos, a sociedade
tampouco importara com isso. A educação vem de berço, e quando assim não for,
as ruas darão uma outra faceta aos meninos. Este aspeto pouco conveniente pode
provocar o futuro das nossas crianças e consequentemente do nosso Cabo Verde de
Amanhã.


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